Entre viajante e habitante: A saudade que virou caminho
- 26 de fev.
- 3 min de leitura
As memórias mais antigas serão de conversas entre mim e o meu avô, sobre a sua viagem marítima para a Índia! O nosso Vasco da Gama lá de casa, percorreu a costa africana a bordo de um navio português com destino à Índia, onde ficou durante algum tempo. Tempo suficiente para deixar a minha avó agarrada a saudades que iam sendo superadas com a chegada das cartas que as vizinhas ajudavam a ler.
Em mim, estas conversas deixaram a semente da aventura, do querer conhecer mundos para lá da porta da rua e do horizonte e uma vontade inabalável de conhecer outras culturas!
Mesmo depois da morte do avô, e talvez até mais depois disso, todo o imaginário das aventuras e viagens pelo mundo fora, em busca de outros olhares sobre o mundo, se adensaram. E cada oportunidade de sair do meu pequeno mundo era aproveitada.
Essas oportunidades foram cada livro que li e que me permitia viajar para sítios até aí desconhecidos e, numa fase mais adulta, as viagens para todos os lugares fora da minha realidade, principalmente para culturas diferentes daquela que sempre conhecera.
E nestas viagens, através das palavras e mais tarde dos olhos e da pele, foi crescendo em mim uma vontade maior do que simplesmente estar de passagem enquanto turista. Queria viver entre eles, comer com eles, estar com eles, ouvi-los, observá-los, imitá-los. Mesmo que por alguns dias. Mesmo que não para sempre.
Esta vontade foi-se desenhando dentro da minha cabeça e coração, como um rascunho que mais tarde seria desenho de verdade e a resposta personificou-se numa intenção concreta: tenho que ir fazer voluntariado!
Seria assim, mais do que viajante, menos do que habitante. Uma coisa entre estes dois lugares. Com um pé no ir e outro no ficar, com uma cabeça, um coração e uma alma que se desdobraria em dois.
O lugar que a minha vida permitiria ocupar, entre todas as responsabilidades e afazeres.
Como é normal, fui alimentando o sonho dentro de mim, definindo objetivos e metas, prazos e condições reais.
"Quando os miúdos crescerem". Era o plano.
18 de março de 2019 e Moçambique sofria os efeitos do furacão Idai. A ordem dos arquitetos mandou um email a solicitar voluntários para ajudar na reconstrução da cidade da beira e nesse dia, à hora de almoço, comentei com os miúdos e os meus pais que gostava de participar numa missão daquelas. Fui naturalmente desencorajada, uma vez que, dizia a mãe Lena, os meninos ainda eram muito pequeninos para essas minhas loucuras...
Acontece que, os meninos com 9 e 7 anos na altura, no regresso a casa e enquanto estacionávamos o carro, comentaram o seguinte: "mãe, nós achamos que tu deves ir ajudar aquelas pessoas e aqueles meninos, porque agora eles precisam mais de ti do que nós".
Foram os segundos mais bonitos e inspiradores da minha vida. Os meus filhos a achar que sim? Que devo ir? Mesmo sem terem a real noção do que estão a dizer? Que orgulho destes miúdos!
Estava lançada a primeira pedra desta obra que seria a minha estrada até África.
Nos dias seguintes tratei de portfólio com ajuda de uma amiga, fiz carta de apresentação e enviei email na esperança de que aceitassem o meu curriculum para ajudar a reconstruir Moçambique.
Lembro-me que foram dois meses de muita ansiedade até que, em maio desse ano, recebo email a dizer que tinham enviado a primeira equipa de voluntários, mas não iriam enviar a segunda por falta de verbas.
E assim terminou a minha primeira experiência de voluntariado em África, ainda mesmo antes de começar. Deixou, no entanto, a vontade bem viva em mim e a certeza que deveria aproveitar as palavras dos miúdos para não deixar que a vontade esmorecesse.
E daí para a frente foi verbalizar o desejo, procurar, imaginar, ler sobre o assunto. A cada leitura, conversa, descoberta, tudo se tornava mais real e tudo se tornava mais possível, mais perto, mais verdade.
Há uma certa dose de loucura e insensatez nestas decisões. Uma necessidade premente de ignorar perigos, “ses”, dúvidas e medos. E focar só em tudo aquilo que se vai viver. Tudo aquilo que se vai aprender, partilhar, sentir. E só se segue assim. Em frente...
A viagem para Moçambique não aconteceu... mas aconteceu para Angola, uns 3 anos mais tarde, onde tive a experiência mais imersiva e impactante de toda a minha existência. E de onde trouxe a vontade de continuar a ser pessoa que ali nasceu. Uma forma nova de se ser humano: entre viajante e habitante.
Cristina Mão-de-ferro
São Tomé e Príncipe
13 de maio de 2025



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