O Postal do Mosteiro onde vivi - Wat Pa Tam Wua, Tailândia
- há 3 dias
- 5 min de leitura
Antes de vir, antes sequer de Portugal sair, tinha toda uma ideia do que seria esta semana. Escrevi no meu plano, "passar 10 dias em silêncio!". Uma exclamação em desafio. O de enfrentar o medo, do silêncio, e em segredo, de mim. Do eu isolado de recreios e vícios sociais.

Não sabia nada quando escrevi aquilo. Não sabia o que era estar em silêncio tanto tempo, e ainda não sei. Não sabia que não ia precisar dele, para enfrentar esta minha, tão meticulosamente evitada, solidão.
Sabia sim que seria uma experiência diferente, exatamente do que vim à procura. Sabia que seria por aqui que aprenderia a viver uma paz que nunca senti, e nela, encontrar cura.
Não sei onde fui buscar esta mania de Miss independente. Este orgulho que nem tive por mim durante tanto tempo. Este pensamento, de que para ultrapassar uma mente descontente, é preciso distanciamento.
Mas nem sempre é certo. E neste caso não era. Este combater fogo com fogo, atear lenha a uma fogueira já quase extinta, não me traria mais crescimento do que o calor do momento em si. O momento que já vivi, e escrito em extremo, sobrevivi.
A solidão tornou-se medo algures pelo caminho. Lembro-me vagamente de ter 7 ou 8 anos, e de nem me importar com quem ia passear no intervalo. Lembro-me de nem ter presente a necessidade de fazer amigos. Que me bastava a mim.
Algo muda como um salto em altura, e uma mudança de escola. Mas algo maior muda com todas as vezes que, já não por escolha minha, me vi sozinha. Curioso o que nos faz a consciência, que tantas vezes nem é nossa.

Mas estes dias, muito perto do início da viagem mudaram tudo. Mudaram o meu à vontade com o silêncio, a minha capacidade de sentir-me bem só comigo de novo, e mudaram-me a mim, em muitos cantos interiores diferentes.
Escrevo já depois de voltar, com a certeza que foi das experiências que mais me preencheram, mais me encheram de propósito.
Vou contar-vos sobre o meu dia-a-dia neste lugar. Aliás, começo por vos contar sobre este lugar. Um refúgio entre a natureza, onde nada mais se ouve se não a mesma. Rodeados de verde, e da energia mais pura que alguma vez senti.

O Wat Pa Tam Wua vive de um horário simples, quase austero, e talvez por isso, profundamente transformador. O dia começava cedo, às 4:45h da manhã, bem ainda antes do sol. O primeiro despertador, ainda que apenas em modo vibração, não pede pressa, pede presença. Acordávamos para meditar no nosso quarto, em silêncio. E é curioso como o silêncio da madrugada não pesa, embala.
Seguia, juntamente com outros voluntários para a pequena cozinha, onde um casal de Tailandeses, sozinhos, cozinhavam - e bem! - para cerca de 100 pessoas. Entre descascar batatas, cortar cenouras e curgetes, existiam poucas palavras de conversa. Muitos em silêncio absoluto, outros em sintonia. Das experiências mais enriquecedoras, uma mesa de 6, 7, 8 pessoas às 5 da manhã, pronta para ajudar tanta gente.
Às 6h30, seguíamos para o Dhamma Hall para a oferenda de arroz aos monges. Um gesto pequeno, repetido, e humilde. Aprendi ali que servir pode ser tão meditativo como sentar de olhos fechados. Não há palavras, não há trocas - há intenção.
O pequeno-almoço, logo a seguir era simples, vegetariano, suficiente. Nada de excessos. E, estranhamente, nada de faltas. A primeira coisa que comia depois de 2 horas acordada. O corpo adapta-se mais rápido do que a mente.
Até às 8h, tínhamos alguns minutos livres. Uns voltavam aos quartos, outros limpavam a cozinha. Eu decidi a minha rotina bem perto dos primeiros dias. Sentar-me num ponto de vista estratégico, e desenhar. Sempre no mesmo canto, e no mesmo caderno.
Soava o sino bem alto, que informava horas e ações. Hora de escolher um dos colchões verdes do Hall, que tinham sido dispostos por alguém nesse tempo livre. Começava a primeira palestra, e a aula de meditação. Sentados no chão, durante horas, entre ensinamentos e prática. O corpo reclama, a mente negocia, e depois… algo cede. Não sei explicar quando, mas sei que acontece. O tempo abranda. O desconforto ensina.
Às 10h30, nova oferenda aos monges, e às 11h, almoçávamos todos - a última refeição sólida do dia. Parece radical quando o escrevo agora. Parece impossível quando se imagina. E depois torna-se natural. O corpo aprende limites, e a mente, desapego.
À tarde, depois de outro descanso silencioso, um novo bloco de meditação, 12h50. Primeiro em movimento, numa volta com todos. Uma fila única que percorria em silêncio a natureza. Descalços, todos os sentidos apontados para o tato. E talvez para a audição. E sem dúvida para a visão, com aquelas paisagens! Foi difícil incorporar este estilo de meditação, em movimento, mas uns dias de repetição e conhecimento do caminho constante, trouxeram-me o compreender que talvez seja a melhor forma para um coração ansioso, em pulgas e sempre ativo.
Às 16h, a hora oficial do voluntariado, pois senti que num ambiente de entreajuda como aquele, difícil seria não querer ajudar e participar a tempo inteiro - o meu coração voltou carregado de bom karma! Limpar casas de banho, varrer folhas, lavar chão. Trabalho físico, mente vazia. Nunca pensei que esfregar um balde pudesse ser um ato espiritual, mas ali era.
Descobri, com pena minha, o meu ato de servir favorito, só ao quarto dia. Queria tê-lo feito o máximo possível! Sentir bem os pés naquela terra, o sol de fim de dia na cara e nas cores, os sorrisos das poucas pessoas que descobriram que aquilo valia como trabalho voluntário oficial: Ajudar a plantar e manter a horta. E a minha parte preferida deste momento, era fazê-lo juntamente com um dos monges mais antigos. Sábios e tão calados. Que naquele específico momento, falava sobre tudo! Sobre ele, sobre o mosteiro, sobre nós. Perdi a conta da quantidade de perguntas que nos fez! A curiosidade dele era bicuda e emotiva. Vê-lo e senti-lo viver a vida lá fora através de nós, deixou-me feliz, porém ao mesmo tempo com um sentimento de aperto, com alguma certeza de que me seria difícil tomar aquela decisão de vida, esquecer tudo o resto, imaginar o mundo, em vez de o viver.

Às 17h, um pequeno intervalo: chá, café, chocolate quente. Um mimo discreto, quase cerimonial. Nada é distração, tudo é consciência.
Às 18h, o coração do dia: cânticos, meditação longa, e nova palestra. O corpo já cansado, a mente mais aberta. É aqui que muitas coisas caem. Defesas, histórias, identidades. Algumas noites foram leves. Outras, difíceis. Todas necessárias.
Às 20h30, chá novamente e descanso. Sem telemóveis. Sem conversas desnecessárias. Sem fugir de nada. Dormir cedo passa a ser um presente, não uma obrigação.
E assim se repetiam os dias. Iguais por fora, profundamente diferentes por dentro.
Não era um retiro de relaxamento. Era um mosteiro. E isso sente-se. Nada ali existe para nos agradar - existe para nos acordar. E talvez tenha sido isso que me devolveu algo que eu julgava perdido: uma relação honesta comigo mesma.
Não precisei do silêncio absoluto que planeei. Precisei do ritmo. Da estrutura. De deixar de decidir constantemente. De confiar.
Saí de lá sem respostas definitivas, mas com algo melhor: espaço. Espaço interno. Espaço para sentir sem fugir. Espaço para estar comigo sem medo.
E talvez seja isso que este postal quer dizer.
Não é sobre o lugar onde vivi.
É sobre o lugar onde voltei a caber.

Texto escrito por Inês Simões



Comentários