À boleia até à Austrália
- há 3 dias
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Recentemente terminei uma caminhada de 800km naquela que é considerada uma das estradas mais bonitas do mundo: A “Pamir Highway”, no Quirguistão e Tajiquistão. Foi, sem dúvida, um dos maiores desafios a que já me submeti, tanto a nível físico como mental, mas estes 38 dias foram apenas uma parte da verdadeira aventura a que me propus: ir à boleia de Portugal até à Austrália.

Já lá vão 6 meses desde que saí de Coimbra em busca de conhecer diferentes culturas, e uma das perguntas que mais me fazem é “de onde veio esta ideia?”.
A verdade é que tudo começou com um simples projeto de voluntariado. Eram as férias de verão entre o meu 2º e 3º ano da Faculdade e eu queria fazer algo diferente. E fiz. Passei 1 mês na Polónia com mais 9 voluntários de vários países, com o objetivo de promover sustentabilidade a crianças de diversas vilas.
Gostei tanto desses 30 dias que disse para mim mesma “todos os verões quero fazer algo do género”. No verão seguinte estava a ir para a Grécia, para voluntariar na minha primeira Eco-comunidade. Mais 1 mês no meio de pessoas incríveis com quem aprendi muito e foi então que percebi: 1 mês por ano não é suficiente. Eu precisava de mais. Mais desta liberdade, comunidade, aprendizagem informal…de estar no meio da natureza desligada do meu telemóvel, mas extremamente conectada com aquilo e aqueles que me rodeavam.
No final desse mês decidi que queria tirar um gap year para fazer mais projetos de voluntariado. Honestamente, eu queria fazê-lo logo, mas só me faltava 1 ano para terminar a faculdade. Já tinha orientadores de estágio de quem gostava muito e sabia também que os meus pais não iam gostar nada da ideia de deixar o curso em stand-by.

No fundo, eu sabia que se fizesse o gap year naquela altura dificilmente quereria voltar para terminar o curso…para mim era claro que me ia apaixonar por aquele estilo de vida.
Assim, voltei para Portugal. Foi um ano complicado em que só conseguia pensar em viajar. Tudo o que eu queria era defender a tese e voltar para a Grécia...e assim foi.
1 semana depois da minha defesa estava a caminho daquela mesma comunidade grega, para começar aquele que seria o melhor ano da minha vida até agora. Passei 6 semanas nessa comunidade antes de ir para o Perú por 3 meses e meio. Metade desse tempo foi passado na floresta Amazónia a trabalhar com frutas tropicais e construção com materiais naturais. Mas claro, conheci também o deserto, as montanhas e as praias com o Oceano Pacífico. Com muita pena minha tive de voltar para a Europa, pois já não tinha mais dinheiro.

Os projetos que fiz na Europa foram através de uma plataforma incrível: European Solidarity Corps. Não só me cobriram todos os custos em termos de transporte, alimentação e alojamento, como ainda me davam um “pocket money” de 5€/dia, dos quais eu não gastava quase nada.
Cheguei a fazer mais 3 projetos com esta organização, na Grécia (sim, outra vez a mesma comunidade), Hungria e Eslovénia, antes de voltar a Portugal para uma pequena aventura a solo: uma viagem de bicicleta de Coimbra até ao Algarve. 700km pedalados em 9 dias para chegar a Albufeira, onde voluntariei num campo de surf. Em Setembro fui para uma eco-comunidade na Suécia para o projeto de voluntariado que fechava este gap year. Nesta altura eu já sabia que não era só um gap year. Eu não me conseguia imaginar a voltar para a faculdade para fazer o meu mestrado, nem a arranjar um trabalho “normal”. Era impossível pensar nisso sequer.
E eu digo isto como alguém que sempre adorou a escola e a faculdade. Aprender e estudar sempre foram uma das minhas maiores paixões, e inclusive ganhei 3 prémios na faculdade por ser uma excelente aluna. Mas durante este ano percebi que tal não se limita a instituições educacionais. Uma das coisas que eu não gostei na faculdade foi a falta de tempo para estudar sobre temas para além do que era ensinado no meu curso. Eu estava a estudar nutrição, mas queria ter tempo também para aprender sobre neurociência ou matemática, e não tinha.
Mas durante este gap year, eu consegui ouvir inúmeros podcasts e ler muitos artigos científicos sobre 4 ou 5 áreas de estudos distintas. Isso, para além de tudo o que aprendi na prática no que toca a permacultura, bio construção, como viver com pouco dinheiro, etc.
Eu aprendi mais neste ano do que em 2 anos na faculdade.

Foi um ano intenso em vários aspetos, mas principalmente um ano de muito auto-conhecimento. Cruzei também caminho com muitos viajantes, alguns deles a fazer viagens como a que eu estou a fazer agora: a cruzar continentes à boleia, de bicicleta, ou até a caminhar. Estas pessoas introduziram-me a um estilo de vida que eu desconhecia totalmente, mas que despertou uma curiosidade gigante dentro de mim. No início desse gap year experimentei andar à boleia pela primeira vez com uns amigos na Grécia. E lentamente fui adotando este estilo de viagem e gostando cada vez mais do mesmo. Tanto que quando decidi que queria embarcar numa viagem longa e sem voar, ir à boleia foi logo uma das primeiras opções.
Já estou na estrada há quase 7 meses. Cruzei a Europa, Turquia, Geórgia, Rússia e 4 países da Ásia Central, e agora vou em direção à China. Experienciei momentos muito difíceis, desde doença a assédio, mas a hospitalidade com que fui recebida por inúmeras pessoas, a natureza que tive a oportunidade de explorar e todas as aprendizagens que já tive são o que ficam na memória!
Texto escrito por Ana Lucas



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