Entre o frio e as auroras: os desafios de trabalhar na Lapónia
- há 3 dias
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O Nelson embarcou numa aventura única: trabalhar na Finlândia durante cinco meses no inverno, em Rovaniemi, a capital da Lapónia e lar da famosa Vila do Pai Natal, a Santa Claus Village. O objetivo da viagem é unir trabalho à sua paixão pela natureza e viver uma experiência longa e transformadora. No artigo de hoje, ele conta-nos como foi o primeiro mês da sua experiência em Rovaniemi.
Chegámos a Rovaniemi, a cidade conhecida pela cidade do pai natal, na Finlândia. Depois de uma viagem de 18 dias de autocaravana desde Portugal até ao norte da Europa, atravessando 13 países e percorrendo 6200km, chegou finalmente o momento onde começa uma nova fase da minha vida. (Podem saber mais através deste post que fiz sobre a minha vinda para a Finlândia, aqui!)
Fomos os segundos a chegar à casa que a empresa nos facultou para viver até março. Isto possibilitou escolher um dos melhores quartos da casa, uma vez que a mesma tem 8 quartos. Dois deles improvisados com paredes de pladur e com condições um bocado duvidosas. Um deles foi “construído” na sala, colocaram uma parede de pladur e deixaram a parte superior aberta. Ou seja, toda a luz e o barulho da sala passa automaticamente para o quarto... Algo um pouco mau para uma renda de 400€, tendo em conta que temos de dividir o quarto com outra pessoa. A situação da habitação em Rovaniemi não está muito famosa devido ao facto do turismo aqui estar a aumentar a um ritmo alucinante. Apesar destes pequenos detalhes, a casa no geral tem muitas boas condições, uma cozinha grande, um sistema de aquecimento bom e até uma sauna!

Em 2024, só no aeroporto de Rovaniemi, aterraram cerca de 948.000 pessoas (+29% em relação a 2023) , totalizando 41 rotas de voo diretos europeus. Não esquecendo o facto de outros meios de transportes também serem bastante usados para chegar cá, como por exemplo o comboio ou os autocarros. Este crescendo no turismo também traz os seus problemas. Tendo a cidade cerca de 66 mil pessoas a viver e os proprietários preferirem ter alojamentos para estadias de curta duração faz com que seja muito difícil o acesso a uma habitação de longa duração.
Chegámos dia 29 de outubro (quinta feira) e o nosso trabalho começaria oficialmente dia 3 de novembro (segunda-feira), então tivemos algum tempo para conhecer as pessoas, as redondezas da nossa casa e até uma festinha na nossa casa com o pessoal!
A primeira semana foi essencialmente tratar de burocracias das finanças, apresentações das regras e procedimentos da empresa, apresentação das atividades que a mesma oferece e também algumas “aulas” sobre as motas de neve. Digo “aulas”, porque no momento em que chegámos, a neve ainda não tinha chegado. Aliás, à data que escrevo este artigo (8 de dezembro) ainda não tivemos neve “a sério”. Nevou durante 3 dias sem parar e foi isso. Recentemente as temperaturas têm estado perto de 0, algo não muito benéfico para a neve pois a mesma quando cai, acaba por derreter no dia a seguir.
Mas foi na primeira semana que aconteceu algo que nunca pensei que viria a acontecer. Cortei um pedaço do dedo, ficando com a ponta pendurada e desprendida da unha. Parti a ponta do osso do dedo e levei 5 pontos. Que belo início de temporada! E como é que isto aconteceu? Simplesmente carregando pedras no local onde viria a ser a pista das motas de neve para as crianças. Ao pousar uma pedra pesada com outro rapaz, a minha mão ficou por ligeiros milissegundos entre duas pedras e ao remover a mesma, já estava com a mão a pingar sangue. Surpreendentemente mantive a calma e lidei bem com a ferida até ao momento em que fui para o hospital e levei os pontos. Esperei cerca de 4 horas até me chamarem e apesar de algumas dores, consegui manter-me firme. Passei 14 dias em casa, de baixa médica, sem poder trabalhar. Gosto de estar sozinho e até foi bom para recarregar a minha bateria social. Os primeiros dias na casa foram intensos, muitas caras novas, muitas histórias e muita convivência. Sou uma pessoa que gosta do seu espaço e inicialmente foi um choque grande o facto de ter partilhar casa com tanta gente. Foi durante este período que tivemos a oportunidade de ver pela primeira vez nesta temporada auroras boreais. E mesmo à porta de casa! Uma hora de puro espetáculo nos ceús.

Chegou a um ponto em que me senti um pouco em baixo pelo facto de não conseguir fazer nada e apenas ter de esperar que o dedo curasse. Ver a malta a chegar a casa toda entusiasmada, a criarem laços entre eles e a partilharem histórias e acontecimentos do dia. E eu ali, sem nada para dizer, a sentir-me um pouco de lado. Tentei combater o tédio com a edição das fotos da viagem até cá e com algumas pequenas caminhadas pelas redondezas (temos uma floresta e uma torre de vigia a 20 minutos de casa!).

Na semana a seguir ainda consegui fazer o cursos de primeiros socorros, pois era a única oportunidade para o fazer. Foi algo que pelo menos me possibilitou sair de casa e ter alguma interação com o resto dos guias. Aprendemos o básico do suporte de vida, tais como as compressões, respirações e o uso de desfibrilador. Como estamos num clima extremo de frio (com mínimas até -25º!!), também tivemos a oportunidade de aprender técnicas para aquecer possíveis clientes que possam entrar em hipotermia. A questão do frio nesta zona é um tema sério e é super importante estar preparado para agir neste tipo de situações.
Ainda nos dias de baixa, aproveitei para dar uma volta pela cidade e conhecer um pouco mais sobre a mesma. Rovaniemi é uma cidade recente, pois 90% foi totalmente destruída através de um incêndio provocado pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Na sua reconstrução, um arquiteto chamado Alvar Aalto desempenhou um papel super interessante.
Foi ele quem idealizou o novo plano urbanístico da cidade, concebendo-o em forma de rena - um símbolo profundamente ligado à Lapónia. As principais estradas que ligam Rovaniemi representam os chifres, o rio Kemijoki o corpo e o centro funciona como a cabeça do animal. Que ideia genial!

Os dias de baixa passaram e finalmente chegou o dia de tirar os pontos. Apanhei um autocarro até à cidade e dirigi-me à clinica. Correu tudo bem, os pontos deram alguma luta devido ao sangue coagulado mas no geral a cura estava bem encaminhada. Estava mesmo contente nesse dia e super entusiasmado por finalmente começar a trabalhar, ainda que de forma lenta e consciente. No dia a seguir fui para a loja na cidade, e apesar de ainda não começar a fazer as tours em si, foi bom começar a conhecer alguns processos. Antes das atividades temos de ajudar os clientes a vestir os overalls de inverno, as botas e as luvas. Pode parecer secante, mas para mim significou o início do trabalho, o início daquilo que estava planeado fazer com a viagem até cá. No dia seguinte “avancei” um pouco mais e fiz de táxi. Os transportes públicos não funcionam ao fim de semana na cidade e, por isso, fui delegado a ser táxi para algumas pessoas que dependem de transportes. Foi bom para conhecer as pessoas e para conhecer a cidade em si. Lentamente, fui colocado nas tours e foi mesmo engraçado pois nas primeiras vezes estava tão entusiasmado quanto os clientes. Era um guia, mas naquele momento também era um cliente! Algo desafiante para os guias é fazer com que a experiência seja especial para todos os clientes. Apesar de algum tempo depois estarmos “fartos” de fazer aquela atividade, não podemos esquecer que para o cliente é a primeira vez (e muito provavelmente a última) e por isso temos de transmitir o entusiasmo e a melhor experiência possível!
A empresa (e quase todas na verdade) oferece essencialmente 5 atividades principais: Passeios de Renas e Huskies, tours de motas de neve, tours de auroras boreais (de carro ou de mota) e ice-fishing (de carro ou de mota também). Após algumas atividades de renas e huskies, fui fazer a minha primeira tour de aurora boreal e não podia ter corrido de melhor forma. Tive um casal com dois filhos pequenos do Reino Unido, super tranquilos e carinhosos. Ver auroras boreais nem sempre é fácil e depende de imensos fatores para as ver. Fomos para a primeira localização mas não tivemos sucesso. O céu estava limpo, no entanto, as auroras não apareceram. Fomos para outra localização, um lago congelado, e mal chegámos o espetáculo começou. Ver auroras boreais é algo sem explicação. Tinha a câmara e o tripé comigo e ainda consegui tirar umas fotos “profissionais” para os clientes. Ficaram mesmo contentes com o resultado e fico mesmo de coração cheio pelo facto de ter a possibilidade de oferecer fotos melhores para os meus clientes. Antes de terminar a tour ainda fomos para um Lavu (local típico finlandês para fazer fogueiras), fizemos uma fogueira, bebemos um sumo quentinho e comemos uns marshmallows. Algo muito comum cá na Finlândia. No final da tour ainda tive direito a uma gorjeta (primeira tour de auroras, primeira gorjeta!).

À medida que os dias foram passando o meu dedo foi curando melhor, o sangue seco foi desaparecendo e a pele foi regenerando. Chegou o momento de finalmente andar de mota de neve. Foram 10km de pura alegria e satisfação. Finalmente pude fazer aquilo que estava planeado fazer. Lentamente fui “desbloqueando” todas as atividades que vou fazer durante a temporada e comecei finalmente a sentir-me vivo, com propósito. Felizmente o feedback tem sido bom, a interação com as pessoas tem corrido super bem, a equipa é super dinâmica e o trabalho em equipa flui de forma muito natural. Somos 40 guias ao todo, com origens e personalidades diferentes. Há pessoas que se dedicam mais que outras, tal como acontece em todas as empresas. Não vou mentir, na primeira semana houve momentos em que meti em causa a minha decisão, se estava no sítio certo. As primeiras duas semanas não foram fáceis, a minha comunicação com o inglês estava travada e sentia-me desmotivado. Depois o acontecimento do acidente do dedo fez com que pensasse ainda mais na minha decisão. Mas de alguma forma, mantive o pensamento positivo e acreditei que as coisas poderiam melhorar. Hoje, passado mais de 1 mês cá, numa altura em que o trabalho está a aumentar cada vez mais devido à época alta, não poderia estar mais satisfeito com a minha decisão. A relação boa com as pessoas no trabalho e em casa, o bom feedback do meu trabalho, a satisfação dos clientes no fim de cada tour e o desafio de viver num clima e cultura tão diferente tem sido o meu incentivo no dia-a-dia e a confirmação de que foi das melhores decisões que tomei na vida.
Texto escrito por Nelson Sousa



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