Entre o céu e o mar
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Foram três dias de barco pela Indonésia. Partilhámos a travessia com pessoas locais, arroz cozido, baratas e a maresia constante do mar.
O silêncio misturava-se com o som das ondas e, de vez em quando, o cheiro intenso de peixe lembrava-nos onde estávamos.
Assim começou a viagem até Bau Bau - uma cidade onde ficaríamos com uma família que conhecíamos e de onde partiríamos para visitar a tribo conhecida como os ciganos do mar.

O Mário, o nosso guia, acompanhou-nos desde o início. Levava sempre na sua mochila uma pequena cozinha portátil, onde preparava todas as refeições com uma calma que parecia vir do próprio mar. Lavava sempre o arroz antes de o cozinhar, e quase no final mudava-o de panela, deixando-o terminar fora do lume. Tinha sempre um frasco de kecap manis, o “ketchup original” da Indonésia - um molho doce e escuro que dava sabor a tudo.
Nos dias que passámos com o Mário, falámos sobre tudo um pouco - planos, sonhos e objetivos. Percebemos que, para ele, viajar era mais do que uma profissão. Levar pessoas desconhecidas a conhecer os tesouros escondidos da sua ilha era, para ele, uma forma de partilhar amor. A cada refeição e conversa, sentíamos que o tempo passava devagar e depressa ao mesmo tempo.
Aqueles três dias pareciam conter os cinco meses de jornada que já tínhamos vivido até ali. E era o nosso último grande objetivo da viagem antes de terminar.

Na noite anterior à visita à aldeia dos Sama Bajau, ficámos hospedados na casa de um barqueiro, amigo do Mário. Jantámos juntos o que o Mário preparou - peixe grelhado, arroz e kecap manis. Simples, mas suficiente.
Ficámos ali porque o rio que dava acesso à vila estava a encher e a corrente era demasiado forte para atravessar. O Mário contou-nos que havia crocodilos naquelas águas, e esperámos até o amanhecer.
A aldeia surgiu depois de três dias no barco, quatro horas de estrada e dez minutos numa canoa de madeira. Flutuava no horizonte, serena, como se fosse um mundo à parte. As casas equilibravam-se sobre o azul do mar, ligadas por pontes estreitas.
Por vezes, tudo abanava ligeiramente com as ondas. Ali, tudo se move ao ritmo da água.
Fomos recebidos com sorrisos tímidos e curiosos. Falámos com o líder da comunidade, um homem de olhar tranquilo, pele queimada do sol e mãos marcadas pelo sal. Disse-nos que ali tudo começa e termina na água.
Contou que antes viviam apenas em barcos, mudando-se conforme as marés e o vento.
E que, apesar de agora as casas se erguem sobre pilares, a alma da comunidade continua nómada.
O mar é que decide quando se pesca. É ele que alimenta, que ensina e que nos dá o sustento.
Percebemos que o mar ali é casa, cozinha e abrigo. As crianças aprendem a nadar antes mesmo de saber andar. Brincam descalças nas pontes de madeira a treinar os melhores saltos para a água e apanham peixes com as mãos.

Os adultos trabalham e conversam lado a lado, cada um na sua função, mas sempre em união.
À mesa, que era o chão, partilhámos peixe fresco acabado de pescar.
Comemos com as mãos e esquecemo-nos, por instantes, de que vínhamos de um mundo a mais de 12 mil quilómetros de distância.
Ofereceram-nos o pouco que tinham - o doce de banana caramelizada preparado por três mulheres e os papagaios coloridos que os homens constroem para pescar, que dançam com o vento.
Falámos sobre o mar, sobre como sabem onde encontrar os peixes e sobre como ele tem mudado. Contaram-nos que o peixe é mais escasso e que o oceano já não é tão previsível como antes.
Ainda assim, continuam a confiar nele. A serenidade deles parecia vir dessa entrega - de quem aprendeu a viver em sintonia com o que não se controla.

Na maré baixa, ao pôr do sol, fomos com eles à pesca. Observámos mais do que pescámos.
Tocámos em estrelas do mar e tentámos compreender como apanhavam pequenos peixes e moluscos presos entre as rochas. Ali todos trabalhavam juntos - crianças, mulheres e homens, uns no barco, outros no areal.
Desta vez não foi possível ir para o meio do oceano com eles, mas voltaremos para concretizar este objetivo. Já temos quarto com vista para o mar onde podemos ficar.
Saímos daquela comunidade com uma certeza - que o mar, como eles, e como todos nós, tem uma linguagem própria. E que só precisamos de tempo, silêncio e entrega para a entender. Aprendemos que a abundância não está no muito, mas no essencial - e que talvez seja no simples que o mundo volta a encontrar o seu equilíbrio.
Texto escrito por Laura & Julio



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