Lesvos: um refúgio de sonhos
- 13 de fev.
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Lesvos, uma ilha onde se cruzam mundos de privilégio e risco. Entre os luxuosos veleiros e os barcos da guarda costeira, a realidade de quem chega em busca de refúgio contrasta com a tranquilidade dos/as que já estão em segurança. Através do olhar da Sara, vamos conhecer uma ilha onde as histórias de perda e resiliência se cruzam e as cicatrizes de cada vida são a memória de uma luta pela sobrevivência.

Lesvos veste-se de preto e branco. Nesta ilha grega, cruzam-se vidas, sem nunca realmente se tocarem. A Turquia está apenas alguns quilómetros — para uns, é uma viagem rápida de 1:30h. Para outros, a travessia pelas águas do Mediterrâneo é uma aposta perigosa, feita de horas ou dias de incerteza. Na marina de Mitilene, veleiros luxuosos olham os robustos barcos escuros da guarda costeira, símbolos de uma fronteira constantemente vigiada. Nas praias de areia negra, onde uns desfrutam de mergulhos com uma botija de oxigénio, outros lutam para recuperar o folego. O privilégio e o risco convivem, mas apenas as águas que separam estes países testemunham ambas as realidades.

As colinas vulcânicas, salpicadas de casinhas brancas, pintam um cenário sereno. Junto ao mar, um amontoado de tendas, pintam também de branco este mesmo espaço. Ali, no campo de refugiados, é onde moram as histórias.
“Recordo o som das bombas ao longe, na Síria. Eu e os meus amigos partilhávamos um sorriso assustado. Significava que, naquele momento, estávamos a salvo.” Para ele, tal como para muitos outros, partir significa deixar para trás tanto do que lhes é familiar. “A minha neta chora ao telemóvel quando fala comigo” diz uma avó afegã, “Ela não percebe porque a deixei. Mal ela sabe que estou aqui para que um dia ela possa ir à escola”.

No metro inferior dos desconfortáveis contentores, as paredes estão rabiscadas com os desenhos das crianças que as pintam como as paredes brancas das casas que ficaram para trás. Apesar do ambiente pesado, o campo é um lugar com vida - crianças correm por ali, brincam entre elas, acenam e dizem “hello”. Sem o saberem, e de mãos vazias, já trazem consigo uma enorme bagagem. Numa das tendas, um senhor com um bigode amigável arranja cuidadosamente as plantas que reuniu à entrada da sua tenda precária. Convida-nos para entrar e beber chá, um gesto de hospitalidade que resiste às circunstâncias.
É neste campo, entre tantas histórias, onde encontrei aquelas de maior sofrimento, mas também as de maior resiliência e esperança.
Durante o pôr-do-sol, olho para o campo, cheio de uma “estranha” calma, sabendo que estas histórias descansam dentro de cada uma destas pessoas, com as suas cicatrizes como a única testemunha da violência sofrida pelo simples facto de terem nascido num local onde não podem ficar.
De volta a casa, estas histórias não cabem todas dentro de mim, como gostava que o mundo também as ouvisse…
Entre o preto e o branco, talvez um tom de cinzento surja nesta ilha, quando todos tirarmos um momento para observar como as nuvens se juntam e a chuva cai, imparcialmente, sobre todos nós.

Texto e fotografias por Sara Michels Martins
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