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Viver a Liberdade, tão longe de casa.

  • 13 de fev.
  • 2 min de leitura

Existe um conceito subentendido a quem viaja desta forma. Sem tempo marcado, sem voo de volta comprado. Esticamos todos, de tantas formas diferentes, esta livre forma de viver. A autonomia de escolher.


Seja qual for o passo, é nosso! Foi aqui, tão longe de casa, que senti pela primeira vez algo tão unicamente meu, um conforto nas decisões e uma liberdade de ser.



E sei que a liberdade nunca foi sobre sair. Nunca foi sobre escapar a um lugar que presos nos fez sentir. É mais sobre explorar em nós o sentimento, que vivido de duma forma tão óbvia, esperamos que fique marcado, colado na memória muscular, e que volte connosco no final. Um espasmo de resposta a uma vida guiada por sermões. Capaz de desfazer padrões.


Enquanto portuguesa, sei que nascemos com um respeito anual a este conceito. Relembrados por entre repetições constantes, cravos até nos mais estreitos becos, filmes, peças de teatro, músicas, e todo o tipo de arte capaz de expressar esta idealização de algo tão sonhado, tão trabalhado.


Cresci com uma noção clara da sorte que a minha geração tem, e ainda assim, cresci com um vazio de quem não valoriza por completo algo por que não lutou. E curiosamente foi aqui, tão longe de casa, que senti que podia decidir, seguir, sentir o que bem me apetecesse.



Fazê-lo sozinha tem sido dos maiores frios na barriga que já senti, mas tem criado em mim uma autorização de conquista, licença digna de me afirmar livre. Talvez a independência necessária tenha mão nesta equação, mas sei que aprendi muito com quem me cruzei.


Porque a liberdade também é um princípio coletivo, uma aspiração compartilhada por comunidades e sociedades inteiras. É o direito de reunir, de expressar e lutar. Não é um estado estático, é uma jornada contínua, uma busca incessante por autenticidade e realização.



E vindo de um lugar que a caracteriza há anos como concepção robusta de uma ideologia, presenciei em primeira fila a sua fragilidade, a sua necessidade de vigilância constante, afinco contra a adversidade.


Neste mundo tão marcado por divisões, a autonomia de viver surge como um farol de esperança, que nos une num propósito. Devia ser o tecido que une a humanidade à pretensão universal, que transcende fronteiras e diferenças. Devia ser direito inalienável e bússola moral, guiando-nos numa busca comum pela verdade, a justiça e a dignidade.


Custa-me hoje especialmente, estar aqui, tão longe de casa. No ano em que valorizo bem mais de perto quem antigamente batalhou, e quem atualmente me apoiou a viver a minha própria revolução.


Ainda sem data concreta à minha volta, mas estou já de barriga com fome de lar, pulmões cheios de ar puro e um coração inundado de pujança de me imaginar gritar na avenida, cravo ao peito, punho ao alto.


Que não me passe a intensidade até ao ano que vem. E que não me falhe nunca a lembrança de o fazer todos os anos. De sair e afirmar, que somos sim, geração sortuda. Com possibilidade de ver o mundo, de sair e voltar, e a Liberdade não voltar a desvalorizar.


Texto escrito por Inês Simões


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