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Aprender a ir

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura
O que acontece quando deixamos o vento nos guiar? É isso que a Beatriz nos conta hoje.

Fazer uma pausa nos meus estudos e escolher tirar um ano nunca foi só sobre parar. Foi sobre confiar. Confiar que o vento sabia mais do que eu. E segui-lo - mesmo sem saber para onde ia.


Saí de Portugal com uma mochila às costas e um nó na garganta. Durante as 25h de voos chorava, sem saber se estava a fugir ou a procurar. Hoje sei: estava a ir ao meu encontro.


Durante cinco meses e meio, cruzei oito países. Viajei sozinha, adoeci, fiquei longe de quem amo. Mas encontrei bem mais do que perdi.


Encontrei silêncio numa estrada vazia. Paz num jardim de mosteiro. Liberdade numa praia esquecida. E abrigo nos gestos de quem não me conhecia, mas cuidou de mim como se conhecesse.


Houve quem tratasse dos meus papéis quando não conseguia levantar-me. Quem me levasse pela mão quando estava perdida. Quem me oferecesse fruta, remédios, chávenas de presença. Quem me visse vulnerável, e ficasse.


Passei dias sem banhos, noites em camas duras, semanas a viver com o mínimo, meses sem mais do que cabia numa mochila. Cheguei a caminhar pela selva sob o sol, sem muda de roupa e com o corpo a doer. Mas ali, num rio, depois de dois dias sem nada, senti tudo. Gratidão. Entrega. Vida.


Aprendi a escutar - os outros, o mundo, o que se passa cá dentro. As conversas com os monges ensinaram-me a importância do silêncio e mostraram-me o valor de estar ali, presente, sem pressas. Lembro-me da venerável que todos os dias me chamava ao seu escritório para me dar um pedaço de ananás, e da outra que, quando me viu a tossir, fez um remédio natural para me ajudar. Os templos tiraram-me o fôlego. Abriam espaço para que eu me sentasse e apenas existisse - deixava o tempo escorrer devagar, enquanto via as pessoas entregues à sua meditação e oração, um ritual silencioso de entrega e presença. As vilas ensinaram-me muito sobre comunidade e ajuda mútua. Lembro-me de quando tiraram uma colmeia de abelhas de uma árvore e depois distribuíram um pouco do mel por todas as casas - um gesto simples, mas cheio de significado. Também participei em recolhas de lixo semanais, um esforço coletivo que mostrava como pequenas ações fazem toda a diferença. As crianças foram talvez a maior lição: eram crianças de verdade, sem telemóveis, usando a criatividade para inventar brincadeiras, tirando do seu tempo livre para aprender mais e sair da zona de conforto. Todos os dias vinham visitar-me, trazendo algo - uma flor da rua, um sorriso - e acabavam por ajudar nas tarefas que tínhamos a fazer. Com elas aprendi que ainda é possível crescer devagar, dia a dia. E nos voluntariados, apercebi-me que não é preciso muito para fazer diferença. Basta estar. Ouvir. Dar um pouco do nosso tempo - ou do nosso cuidado.


Perceber que o mundo é muito mais do que aquilo que a sociedade ocidental nos mostra avida toda é uma experiência que nos abana o chão. Crescemos a acreditar que é assim que se vive: cada um por si, sempre a correr, desconectados uns dos outros e de tudo à nossa volta. Chamam-lhe progresso, chamam-lhe normal. Mas foi do outro lado - o lado que tantos evitam, por medo ou preconceito - que encontrei a humanidade mais pura no ser humano. Vi o que é viver em comunidade. Vi o que é estar presente, simplesmente por estar. Onde tudo parece acontecer a alta velocidade, mas o tempo passa devagar. Onde o caos tem ordem, e o humano tem espaço para ser. 



E depois disso, como aceitar que a vida tem de ser um 9-5, dias iguais, a olhar para o chão, desligados do que importa? Descobri que não, que não tem de ser assim. Que há outras formas de viver, mais conectadas, mais conscientes, mais nossas. E talvez o rumo que tantas vezes sentimos perdido não esteja nas respostas que nos deram, mas nas perguntas que começamos finalmente a fazer.


Também houve dias em que quis voltar. Dias em que o coração doía de saudade. Mas mesmo nesses momentos, havia algo mais forte: um sentimento profundo de que estava exatamente onde devia estar. E se o vento me levou até ali, por que haveria eu de lutar contra ele?


Descobri partes de mim que talvez sempre cá tenham estado, à espera de espaço para respirar. Percebi que sou curiosa: pelas pessoas, pelas histórias, pelos silêncios que também falam. Que encontro paz a caminhar sozinha, mas brilho quando partilho um lava cake do 7/11 com alguém que acabei de conhecer no meu quarto de hostel. Que sou feita de contrastes: gosto da plenitude do fundo do mar, mas também do caos colorido dos mercados. Que sou mais corajosa do que pensava, e mais sensível do que deixava transparecer. Que o meu lugar não está num mapa, mas em cada momento em que me sinto inteira. Sou alguém que se emociona com um pôr do sol, que ri sozinha numa scooter, que sente o mundo nos pequenos gestos. E que aprendeu, finalmente, a estar - só estar. Mais leve. Mais presente. Sem pressa, sem filtros, sem precisar de muito para estar bem.


Mais do que um gap year, este foi o tempo que dei a mim mesma para me reencontrar. Para viver com verdade, sem máscaras nem planos fixos. Para aprender a confiar - no vento, nas pessoas, na vida.


Agora que volto, volto diferente. Trago menos certezas, mas mais clareza. Levo menos peso, mais paz.


E a certeza de que tudo começa quando temos coragem de seguir o vento.


Texto escrito por Beatriz Soares

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