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Entre a vontade de escapar e a vontade de viver

"É no caos que encontramos a ordem e é nas experiências que vivemos que encontramos quem somos", refere a Diana Goulão, depois de se ter aventurado mundo fora com várias experiências enriquecedoras e dignas de serem contadas na 1ª pessoa.


Segue as aventuras da Diana no seu Instagram e, claro, descobre todas as dicas que tem para ti em www.diana-abroad.com.





Viajar nem sempre é uma decisão nossa. O que nos leva a ir é, muitas vezes, a ausência de motivos para ficar.

No final de 2021, após a perda violenta de um dos pilares da minha vida, com quem eu partilhava o teto e tantas outras coisas, achei que não ia aguentar ficar por aqui durante muito mais tempo. Os dias tinham perdido o seu brilho e o mundo fingia continuar. Já não encontrava beleza nos dias solarengos, nem ânimo quando observava o pôr-do-sol, mesmo sabendo que isso significava a existência de um novo dia.


Contudo, houve um dia que amanheceu diferente e percebi, ali mesmo: ainda podia levar o seu nome, as suas certezas e os seus sonhos no espaço dos meus. tinha de trabalhar para trazer de novo o mundo que tinha sido nosso e sobre o qual tantas vezes debatíamos, de forma a poder torná-lo num lugar melhor.


Estávamos em março de 2022, uma pessoa muito importante para mim encontrava-se a passar uma temporada na Ilha Terceira, nos Açores. Numa das nossas conversas acabou por me convidar a ir lá passar uns dias, “para me distrair”, dizia.


Apesar de já lhe ter dito inúmeras vezes, acho que nunca vai ter a noção real do quanto essa mão estendida e esses dias que se seguiram foram importantes para mim. Naquela ilha, senti que o meu mundo ia voltar a girar, a luz ao fundo do túnel estava ali. Havia mais para viver.


Depois de dias incríveis nos Açores, já no avião de regresso a Lisboa, sozinha, a tristeza começou lentamente a dirigir-se para a porta, pronta para anunciar o seu regresso. Quando coloco a chave na fechadura de minha casa, a mesma invade-me brutalmente. A confirmação de que, apesar destes dias tão bons, aquando do meu regresso a casa, tudo estava igual. Naquela altura, tudo estar igual não era um sentimento que quisesse ter.


Um par de horas depois, estava a comprar os bilhetes de avião para a minha primeira viagem a solo. Não tinha uma ideia definida de onde queria ir, mas sabia que necessitava de partir, porque não aguentava mais ficar. Não houve medo ou indecisão: passar tempo sozinha sempre foi uma realidade. Antes de tudo isto, só tinha estado num avião três vezes. A vida nunca me permitiu fazê-lo mais cedo, ou com maior regularidade. Talvez para que agora pudesse dar a cada viagem o seu verdadeiro valor e ter esta paixão tão grande por poder fazê-lo.


Oito dias sozinha, com três grandes paragens: Bordéus, San Sebastian e Bilbau. Escutei com atenção a reação das pessoas mais próximas quando lhes contei a boa-nova. A pessoa que, à data, não tinha vontade de sair de casa, em Lisboa, ia agora partir com uma mochila às costas e sair pela mesma porta que lhe trouxe a tristeza de volta, em busca de um sentimento melhor para preencher os seus dias.


No primeiro dia em Bordéus fui assaltada e conheci a minha primeira amiga de viagem. Decidi focar-me na segunda parte, porque não há bem material que supere o valor das amizades que fiz em cada cidade visitada. Sete meses mais tarde, encontrei-me com ela em Paris, onde vive, e provámos que as fronteiras geográficas não se aplicam à amizade.


Nesses oito dias a viajar, foram muito raros os momentos em que estive realmente sozinha. Fiz amigas de França, dos Estados Unidos e da Escócia. À data de hoje, tenho amigos em cada um dos cinco continentes. Todos fazem questão de me lembrar, frequentemente, que tenho um teto e um abraço à minha espera em cada um deles.


Há uma particularidade sobre as amizades que faço em viagem: são especiais por sabermos que o nosso tempo tem um dia e uma hora marcados. Isto leva-nos a viver todos os momentos com grande intensidade, sempre com a consciência de que podemos nunca mais nos ver. Contudo, o facto de nos termos conhecido, numa parte aleatória do mundo, já foi um grande presente da vida.


Nesta minha primeira viagem a solo, descobri uma faceta de mim, há já algum tempo adormecida. Por esse sentimento tão bom que começou a virar rotina ao longo desses oito dias e que não queria que desaparecesse, no dia que regressei desta primeira viagem a solo, marquei a seguinte. E assim sucessivamente. Até hoje.





Passava horas a ver voos, autocarros e comboios, outras tantas a ver os hostels mais baratos. Incontáveis foram as noites em que a minha cama foi o chão de um aeroporto ou de uma estação de transportes. Mesmo com a privação de sono nessas alturas, sentia-me muito feliz e orgulhosa, por estar ali e por ter escolhido partir, repetidamente, em busca de uma alteração na narrativa da minha história.


Pedi boleias, vivi como uma local, dividi camaratas com 20 pessoas, e cheguei a ter formigas na minha cama numa das noites. Alimentei-me em supermercados, carreguei o meu mundo às costas (a mochila e os traumas), para que continuar este caminho fosse sustentável financeiramente. Nunca tive luxos nas minhas viagens, mas a maior riqueza para mim já era estar ali. Sempre que via o pôr do sol num destino diferente, tudo valia a pena.

Entre junho e dezembro, passei pela Grécia, Málaga, Gibraltar, Palma de Maiorca, Montenegro, Croácia, Suíça, Paris e, para fechar 2022, em dezembro, voei para Budapeste e dei um salto a Viena, onde redescobri a magia do Natal.


Celebrei os meus últimos dois aniversários com uma viagem a solo, sem nunca estar sozinha. Se viajar é o que me alimenta a alma, decidi que não haveria melhor presente para mim própria do que me permitir celebrá-lo além fronteiras.


O Natal era uma altura difícil para mim, que evidenciava a falta que a minha tia fazia à mesa. Assim, decidi também passar o Natal fora e tentar transformá-lo, tanto quanto possível, num momento feliz. Estava determinada a provar que esta altura do ano pode (e deve) ser celebrada onde, como e com quem nos fizer sentido – desde que nos faça felizes. Ainda estou. Mesmo que, para tal, tenha de carregar uma mochila às costas, longe da família e do aconchego do lar.

Budapeste foi o destino escolhido e a minha Consoada não podia ter sido mais especial. Não teve peru, nem árvore de natal, mas teve fatias de pizza, e gargalhadas, com o rio Danúbio como pano de fundo.


A minha Consoada foi passada à volta de uma grande mesa de um hostel em Budapeste, com 10 pessoas de todo o mundo – de Israel a Singapura, passando por Portugal, Mongólia e Holanda, sem esquecer os Estados Unidos e o Iraque. Ali estávamos nós, 10 pessoas a viajar a solo, que nunca tinham estado tão acompanhadas na vida.


Ter sempre viagens marcadas foi a maneira que descobri para o meu processo de cura interior. Sentia que precisava de ter sempre algo para ansiar, uma motivação para me levantar da cama, que fosse além da obrigação de um trabalho ou de pagar contas para sobreviver.


Utilizei cada dia de férias, cada feriado e cada fim de semana, conjugando com dois (às vezes, três) trabalhos para conseguir alavancar este sonho, que rapidamente se tornou a minha forma de terapia e o meu passatempo preferido.


Há quem diga que passei o ano de 2022 a fugir dos meus problemas. Não seria justo discordar totalmente. Fui resolvendo cada um deles, em cada uma das minhas partidas. Muitos ainda estão por resolver. É um caminho. Utilizando como alavanca nos dias maus, o pensamento de que, em breve, estarei a entrar num avião novamente, de mochila às costas, descansa-me. Ainda há tantas páginas em branco para escrever esta nova fase da minha vida. E eu ainda tenho tanto para dizer.


Tenho um desejo imenso de abraçar o desconhecido e viver as experiências que a vida tinha reservada para mim, em cada canto do mundo. Em Gibraltar, a ver macacos; em Montenegro, a escalar montanhas ou, na Lapónia, a alimentar renas e a tentar avistar auroras boreais, encontro-me e descubro-me.


Ao longo de 2022, instalava-se em mim um sentimento de vazio sempre que fazia as malas para regressar a “casa”, como se tudo o que vivia durante as viagens me mudasse de tal forma que já não me fazia sentido encaixar-me aqui. Tudo o que me rodeava continuava igual. Talvez “casa” não fosse mais o termo certo. Casa é o sítio onde sentimos que pertencemos.


Com o passar do tempo, as ânsias pelo próximo voo e o vazio pelo regresso, foram-se dissipando. Cada vez que colocava a chave na fechadura da porta, doía menos. Levava cada dor comigo em cada viagem. Cada paisagem incrível que testemunhei, cada pessoa com a qual me cruzei e cada experiência que vivi fizeram com que as minhas dores se tornassem parte da minha história, mas não mais a definição da mesma.


Percebi que precisava de ir tanto quanto precisava de ficar. Precisava de dias diferentes, para que os meus dias normais não perdessem nunca mais o seu brilho.


Esta vida de viajante que tenho levado fez-me restaurar a fé na humanidade. Uma das minhas partes favoritas de todo este processo são as pessoas com as quais tenho tido a sorte de cruzar. Partilhei tantas vezes a minha história – à volta de uma fogueira na Finlândia ou em frente à torre Eiffel. Escutei tantas outras – desde os conselhos às experiências de vida, dos abraços às lágrimas, identifiquei-me com estranhos que parecia conhecer há anos. As histórias deles são agora partes da minha.


Tenho o privilégio de reconhecer caras familiares em cada canto do mundo. Sou uma sortuda por poder ser constantemente inspirada pela jornada de cada um. Vivo com a esperança de que, um dia, os nossos caminhos se cruzem novamente, mas também conheço a possibilidade de tal nunca mais acontecer.


O ano de 2022 terminou com 12 países visitados. Em agosto de 2023, vou pisei o 21.º. Depois disso, se a vida me permitir, visitarei mais três – e darei o salto para fora da Europa, há tanto desejado. Tudo isto antes de embarcar na maior aventura da minha vida: partir com um bilhete só de ida.


Ao contrário de 2022, este ano todas as minhas viagens surgiram apenas de uma vontade de viver o desconhecido e desbravar o mundo.


Partir e regressar já não são sensações assim tão distintas. Colocar a chave na fechadura já traz um sorriso. Já não conto os dias para a próxima entrada num aeroporto, porque já me sinto finalmente em casa, em Lisboa ou noutro país que visite. Já não existe uma vontade de escapar, apenas de viver.


É no caos que encontramos a ordem, e é nas experiências que vivemos que encontramos quem somos.



Levo comigo todas as experiências que vivi. As mais assustadoras, bem como as transformadoras: observar uma aurora boreal pela primeira vez; ter uma reação alérgica, em Nerja; beber água com detergente, em Gibraltar, fazer rafting no rio que divide Montenegro e a Bósnia; sentir o gelo num lago a partir sob os meus pés; a primeira vez que vi neve; fazer uma viagem de comboio de 13 horas até à Lapónia; as praias mais bonitas da Albânia; as montanhas imponentes, banhadas por cascatas, na Eslovénia; os campos de tulipas de Amesterdão; a arquitetura de Berlim; o charme de Paris; as controversas estradas das Astúrias; a paz da Grécia; a agitação da Croácia; o bom ambiente na Hungria e a beleza de Itália.


É normal ter receio de nos aventurarmos a solo e partirmos para o desconhecido, mas nunca permitirei que isso se sobreponha à minha vontade de explorar esta esfera em que habitamos. O mundo salvou-me – e eu descobri-me em cada pedaço que visitei.


Não sei o que a vida tem reservado para mim, mas sei que nunca estive com tanta vontade de acordar todos os dias e descobrir!


Texto escrito por Diana Goulão


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