O mundo que cabe na casa da Dona Maria
- 26 de fev.
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Atualizado: há 3 dias
Entre a ansiedade que a sufocava e a morabeza que a abraçou, a ilha do Maio - e uma mulher chamada Dona Maria - mudaram o rumo do gap year da Beatriz.
Falta de ar, calafrios, coração a palpitar a mil, pensamentos acelerados que não dão tréguas…
Poderia ser a adrenalina do início do meu gap year, não? Na verdade era só um dia normal numa vida tantas vezes passada em “modo auto-piloto”... Sem questionar, como tantas outras pessoas, fui construindo durante anos a vida “aparentemente perfeita” - o trabalho certo (foco na carreira é importante, dizem!), a relação longa, e objetivos bem definidos: carro, casa e mais uns quantos itens da clássica checklist.
E a vozinha interior que me dizia para largar tudo? Só devia estar louca…
Pensei muitas vezes que só poderia haver algo de errado comigo. Que largar tudo era muito má ideia…
Não sei dizer exatamente o momento em que tomei coragem para me despedir e ir simplesmente viajar. Lembro-me contudo do peso que me saiu de cima quando o fiz.
Lembro-me da ansiedade só diminuir nas primeiras viagens, do alívio de estar longe das expectativas alheias ser tão grande… E sentir que podia ser simplesmente eu…
E depois vieram aventuras infindáveis que por si só dariam mil histórias! Da natureza às pessoas com quem cruzei caminho e que me mudaram! Viver na pele aquilo que já sabia - nós não fomos feitos para estar dentro de 4 paredes (muito menos em frente a ecrãs!). Fomos feitos para ir para o mundo, para viver, para partilhar o melhor que nós temos. E é muito curioso que é preciso ganharmos coragem para nos ouvirmos a nós mesmos quando deveria ser a coisa mais natural do mundo…

Ao longo do meu gap year conheci pessoas com histórias bem mais interessantes que a minha, por isso vou abstrair-me de falar mais de mim (acreditem, iam ficar aborrecidos). Sinto-me na liberdade de contar uma delas - provavelmente a história de uma das minhas pessoas preferidas no mundo: a Dona Maria.
A Dona Maria viveu na ilha do Maio a vida toda - é a sua casa. O Maio… esta ilha meio esquecida no Atlântico, onde muitas vezes falta a água mas nunca falta a bondade e a morabeza. A Dona Maria tem três filhos, já criados. Vive sozinha mas nunca está só porque assim é o Maio. O Maio é comunidade. E todos os dias passam à porta da Dona Maria crianças da nossa rua a querer brincar, vizinhos e amigos que dizem “onde está a Maria?”, “Maria, trouxe-te queijo”, “Maria, como correu o médico?”.
A Dona Maria tem 2 trabalhos, algo muito pouco comum no Maio, onde o trabalho é escasso. Mas a maior particularidade da Dona Maria é a boa disposição mesmo quando a vida nem sempre sorri de volta. Ah, ela também está sempre preocupada se comeste o suficiente (vai sempre achar que não).
A Dona Maria fica feliz com coisas simples. Coisas como ter uma casa equipada com torneira e um depósito de água no telhado. Coisas como ter a parede da sala pintada. E, sem dúvida alguma, coisas como uma boa cachupa.
Tive muita sorte em viver na casa da Dona Maria durante os meses em que estive no Maio. Sei que lhe dei trabalho! Enchi muitas vezes a casa de areia depois da praia, deixei muitas vezes metade da comida no tacho e ainda fiquei doente lá pelo meio. Mas ela sempre cuidou de mim, como faz com todos.
Já em Portugal, depois de muitas despedidas, envio à Dona Maria uma figura de Santo António, num agradecimento meio desajeitado, sabendo eu que é difícil agradecer como merecido a alguém que tocou a nossa vida e o nosso coração. Mas claro que ela me envia de volta a mensagem mais feliz do mundo (não seria de esperar outra coisa).
E agora, de vez em quando quando dou por mim a reclamar da vida, lembro-me do Maio, da alegria de quem me recebeu, e lembro-me da Dona Maria. E depois disso reclamo um bocadinho menos…
Texto escrito por Beatriz Ribau



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