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O problema é ir

  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Apresentam-nos o mundo nos livros, desenham-no em mapas e apontam-nos onde andamos nós e onde andam os outros. Existimos nós e os outros. O cá e o lá. Aqui é seguro, aqui sabes como tudo funciona, onde ir, o que fazer, com quem ir, por onde caminhar. Lá, por esse mundo fora, é incerto, e na incerteza mora o medo. Não sabes onde aterras, não conheces o olhar das pessoas nem a língua que falam, o que comem ou o que fazem. Se quiseres ir para descobrir, dizem-te para marcares a tour, o hotel, o restaurante, não vás tu ter algum azar e depois não sabes como tudo funciona, nesse lugar que não é o teu. Tu nem sequer és dali…


O problema é quando mesmo assim, decides ir.


Para desafiar essa linha que alguém desenhou do teu lugar seguro. Para te desafiares a ti. Para provares que és de qualquer parte, afinal somos todos do mesmo mundo, ou não?


Vais e descobres que as pessoas do lado de lá são exatamente como tu, têm hábitos diferentes dos teus, vestem-se de outra forma e acreditam num outro Deus, mas isso traz-lhes uma magia e a ti acrescenta-te um pedacinho. Foi assim que me senti quando naveguei pelos sentidos do sudeste asiático quando parti pela primeira vez sozinha para fora da Europa, o nosso continente das seguranças e confortos.


E depois de descobrir que as linhas que outrora alguém desenhou não são minhas, o mundo, por si só, tornou-se o meu lugar seguro, e o medo de ir metamorfizou-se na vontade de descobrir o que há onde ainda não fui, e por isso, continuo a ir.



Hoje escrevo desde a Nova Zelândia. O meu novo lugar, pelo menos durante este ano. Vim um bocadinho mais longe, estou o mais afastada que poderia estar de onde está o meu quarto, troquei-o pela cama tripartida de uma carrinha que se converte na minha mesa de jantar, e ainda que as minhas costas nem sempre concordem, o coração continua a dizer para ir, para continuar.


Desta vez venho acompanhada do ombro do meu melhor amigo, que é como trazer o amor pela mão, e o cheiro de casa na roupa. Viemos os dois, com poucas certezas, 2 noites marcadas e umas mensagens enviadas a quem procurava novo dono para o nosso novo T0 e um primeiro trabalho casual arranjado. A partir daí, conduzimos por onde quis o destino.



Queríamos tempo, e o tempo vem com a responsabilidade de aqui nos conseguirmos manter, por isso vamo-nos dividindo entre a viagem e algumas paragens para enchermos as nossas carteiras. A Nova Zelândia não é um país barato para poder apenas viajar durante 1 ano. A nossa solução para contornar este pequeno entrave foi termos conseguido o visto de Working Holiday. O problema é mesmo ir a primeira vez, depois disso começa-se a encontrar 1001 maneiras para conseguir ir de novo.


Passamos as semanas a mudar de residência e de trabalho. Há sempre uma nova pessoa para conhecer e que nos dá uns trocos para arranjar o jardim, limpar a garagem ou ajudar na quinta. Viemos com a expectativa de encontrar trabalhos em empresas e grandes negócios, mas temos sido essencialmente o tempo e o esforço que as pessoas não têm no seu dia a dia.



E assim temos conseguido continuar. Os nossos dois pares de mãos já não chegam para contar as pessoas que nos abriram a porta e nos confiaram a sua casa para cuidar. Com isso vieram os jantares tradicionais, a partilha do modo de vida e dos costumes, a ida à caça e à pesca, o alimentar bezerros e carneiros. Temos vivido nos lugares mais remotos da Nova Zelândia e descoberto as pérolas escondidas nos lugares intocados, onde só quem é de cá sabe. O tempo dá-nos isso, a liberdade para dizer que sim à aventura que surge no momento, à oportunidade que não promete nada ou de fazer aquela estrada que não sabemos onde vai dar, mas nos surpreende pelo caminho.


Sempre vi o tempo que temos neste mundo como a maior riqueza que nos foi dada. E foi oferecida assim, de graça, sem premissas ou cláusulas, por algo maior que nós, que não nos diz o que fazer com ele, mas que nos deixa fazer o que quisermos. E se este relógio biológico é o que de maior valor temos, que façamos o que bem nos apetecer com ele.


Texto escrito por Matilde Manuel

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