Virar-me para a Luz
- 26 de fev.
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Atualizado: há 3 dias
Um ano para me aproximar de mim, do mundo e dos outros.
Tirar um ano para mim nunca foi sobre parar. Foi sobre procurar. Sabia que precisava de sair, mas não para fugir, para me aproximar. De mim, do mundo e das pessoas. Lembro-me de pensar no girassol quando tomei essa decisão. Aquela flor que todos os dias se vira, naturalmente, para onde está a luz. Era isso que eu queria fazer também: virar-me para aquilo que me alimenta.
Durante este ano, fui empurrada para realidades diferentes. Entrei em cidades onde o caos era tão grande que só me restava aceitar. Observei o mundo acontecer à minha frente, sem filtros, sentada em cada canto dos países que me acolheram. Aprendi a estar sem fazer, a ouvir sem responder, a ver sem precisar de entender logo.
Havia beleza e generosidade mesmo nas situações mais desconcertantes.
Senti isso sentada no chão de um templo aparentemente discreto, onde pessoas anónimas me convidaram a partilhar uma refeição, sem me conhecerem.
Não é de encher a alma encontrar um espaço onde voluntários trabalham 24/7 para alimentar o corpo e o coração de quem mais precisa?
Senti o mesmo quando uma família, numa aldeia nas montanhas do Vietname, me ofereceu um banco de madeira, uma chávena de chá e uma tarde inteira de histórias.

Não romantizo o que vivi:
Dormi em tábuas de madeira, partilhei quartos com ratos ou com quinze desconhecidos. Houve dias em que só queria estar em casa. Foram raras as vezes em que tomei um banho de água quente, e adoeci mais do que uma vez. Cheguei até a pernoitar num hospital.
Foram momentos que se transformaram em histórias.
Ensinar numa escola, numa vila remota, em dias em que a energia não chegava para manter a atenção de trinta miúdos num calor de 40 graus, foi um desafio. Mas mesmo no cansaço, havia ternura - no sorriso de uma criança, na paz de um voluntário mais velho que me fazia lembrar um girassol.
Ao longo do caminho, fui conhecendo pessoas que se tornaram referências silenciosas:
Um homem reformado que, com 70 anos, viaja o mundo para ensinar inglês onde é preciso.
Uma mulher que dedica os dias a cuidar de animais abandonados numa ilha na Tailândia.
Um rapaz indiano que hoje chamo de amigo, que, depois de um acidente que lhe mudou a vida, reencontrou o equilíbrio através da fé e da prática do yoga.

Pessoas que, como os girassóis, seguem a sua própria luz e que, sem saberem, acenderam um bocadinho da minha também.
Com o tempo, deixei de procurar lugares “bonitos” e comecei a procurar lugares vivos.
Fugi dos sítios turísticos e fui ao encontro das pessoas.
Aprendi a conversar com gestos e olhares quando as palavras não serviam.
A observar com mais calma.
A reconhecer quando estava a tentar controlar o que não se controla.
Vi muito do mundo, mas também vi muito de mim.
Descobri que sou mais flexível do que pensava, e que não preciso de muito para estar bem: uma refeição partilhada, uma troca de ideias, um canto tranquilo.
Também aprendi que há outra forma de estar: mais presente, mais ligada ao que me rodeia.
Em comunidades próximas da natureza, do silêncio e da espiritualidade, percebi que talvez sejamos nós que complicamos demais.
Entre montanhas, campos de arroz e mergulhos em águas onde me esquecia do tempo, fui sentindo que cada pequena coisa tinha valor.
Perdi-me a observar a simples vida de um agricultor, ou a rotina monótona de um peixe.
Aprendi a não dramatizar, a relativizar, a confiar mais no fluxo das coisas e nas pessoas.
O mundo são as pessoas. E a natureza. E os animais.
E, acima de tudo, aprendi a lembrar-me de que aquilo que damos volta sempre.
Agora que volto a casa, não trago apenas histórias ou fotografias.
Trago uma nova forma de olhar. De viver.
De me virar, sempre, para onde há luz.

Como um girassol.
Texto escrito por Mariana Batalha



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