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O meu Postal ao Mundo

  • 26 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 2 de mar.

Querido Mundo,


Por onde começo?!


Talvez salte já para o que se refere no fim dos postais, não consigo conter! Tenho saudades tuas, do tamanho… bem, do teu tamanho.


Tenho saudades da constante possibilidade, da velocidade com que podia ser quem quisesse, estar onde me apetecesse.


Podia ser aspirante a monge na Tailândia num dia, a pintar um mural num infantário muçulmano na Malásia no outro.

Explorar o Vietname de mota nas mesmas curvas que o King Kong num dia, e viver na selva com uma tribo da Indonésia no outro.

Participar num festival único na Índia num dia, e passar a fronteira até Laos de barco, durante dois outros.


Tenho saudades também da menina que era antes da viagem, daquele sentimento nervoso, do choro dos primeiros dias, de alguém que não fazia mesmo ideia do que era vivenciar o mundo desta forma.




É uma forma muito diferente de viajar! Não é do tipo em que se coleciona lembranças, mas do que as vive.


A mala talvez venha com peso a mais. Do casaco que tive de comprar pela ingenuidade de achar que ia ser sempre verão, do manual de 300 páginas do mês que passei a tentar dominar o Yoga, ou do diário de uma rapariga espanhola que encontrei perdido e achei triste demais deixá-lo para trás.


Felizmente as companhias aéreas só pesam mochilas, porque este coração transbordaria a escala. Tanto que não sei onde lhe colocar o excesso! Esta certeza que durante esta aventura, escolhi dizer que sim, a qualquer coisa que me chegasse.


Disse que sim a conversas soltas num comboio, e acabei alimentada, cuidada e de convite feito a ir à Austrália visitar, ao que depois de horas de conversa, já parecia ser a minha família também.


Disse que sim a um acordar cedo para fazer um trilho com pessoas que conheci horas antes, e acabei por criar um grupo de amigos, com quem, não só viajei por uma semana inteira depois disso, como fiz questão de visitar depois de regressar.


Disse que sim a um local quando comentou comigo que conhecia alguém que fazia o tipo de experiência que andava à procura, e acabei a acampar nos Himalaias com um grupo de 90 indianos, a aprender sobre a cultura em primeira mão, e a dar-lhes uma outra nas subidas acentuadas até ao topo.



Foram 8 meses.

Foram 84 locais de sono.


As minhas costas recusam-se a chamar de camas a alguns deles. Mas locais de sono assenta-lhes bem!


Foram desde os colchões mais confortáveis onde já dormi, a chão de madeira e camisolas enroladas a fazer de almofada. Foram demasiadas cadeiras de aeroportos, e horas a mais em autocarros com 50 bancos inclináveis a 180º. Foram noites a ser banquete a mosquitos locais, e outras rodeada de formigas que só cumprimentei de manhã. Foram desde casas só para mim, a cantos de sótão divididos por mais pessoas do que a lei permitiria. Foram tendas, barcos, relvados, montanhas geladas, hosteis a cair aos bocados, comboios de filme…


Foram relento, alento e turbulento, e não trocava local nenhum (escrevo agora que durmo confortavelmente).




Há um ano não imaginaria nada disto.


Há um ano comprava o voo para o que seria a aventura de uma vida. Hoje, no mesmo quarto onde o fiz, arrisco dizer que não foi pontual. Foi começo. Foi um recomeço de um modo de vida.


Com o desenrascar de quem arranjou sempre forma de chegar a tempo a todos os transportes, mesmo que por vezes tivesse de fazer caminhadas de 2 horas e 25 quilos por não haver boleias naquela rua.


Com o confiar de quem salta para a mota de alguém que diz conhecer outro alguém na cidade do lado que me arranjaria o telemóvel, e depois o deixar ser dissecado por uma hora (e sim, acabar por funcionar!).


Com um bicho carpinteiro maior do que com o que sai, daqueles que me fizeram tentar tantas versões, brincar às profissões, e analisar de perto tantas religiões.



Sempre fez parte de mim, esta ansiedade perante o sossego. O avesso do apego.

Que correndo contra o tempo, me perco por andar sempre sem vagar.


Escrevi este verso na candidatura à bolsa da Gap Year Portugal.


Esta alma inquieta…

Que de tanto querer viver

Acaba sem saber

A quem é, responder.


Escrevi-o com uma convicção de quem previa que depois de uma viagem destas se volta com a cabeça resolvida, e a direção assistida.


Tenho algumas saudades dessa menina perdida… que ainda te tinha a ti, Mundo, pela frente!


A ti e a tantos seres humanos. Abracei mais de 300. E sim, escrevi-lhes os nomes! Porque foram todos uma lição. E é extraordinário como o balanço é sempre positivo nesse teu continente de comida picante e sorriso fácil. Juro que as pessoas lá vivem um paralelo do universo onde nada é assim tão sério, o tempo anda mais devagar e as cores brilham.


Escrevi-lhes os nomes porque, sim, os sítios que visitei foram lindos de morrer, mas o que de facto me possibilitou a sobrevivência, foram as pessoas.


E desgraçada sorte a minha que me fazia esbarrar sempre com a companhia certa, com os seres que tinha de conhecer, e com aqueles que passados apenas 10 minutos de conversa já estaria a planear uma viagem de mota com 4 mochilas formato casa.


Desgraçada sorte que me deixava pistas no percurso até chegar às cidades novas, exatamente ao mesmo tempo. Ou que mas fazia conhecer pelo caminho.


Desgraçada sorte que me fazia escapar dos cúmulos do viajante e das intoxicações alimentares.


E se continuar a escrever sobre toda a sorte que tive nestes meses, não me sobrava postais para mais nada!



Mundo,


Não sabia arrancar, e agora não sei parar!


E talvez seja este o único mal de ir…

Este saber da bondade que existe lá fora, e o que ainda falta ver e conhecer.


Mas sabes? Não trocava este sentimento agridoce de quem furou a expectativa de regressar com a mente organizada, nem nenhum caminho de segurança, por todos os riscos que corri lá fora.


Que nunca me esqueça deste modo de te viver, Mundo.


Sem medos, e de coração aberto de novo a confiar no que poderá estar à minha espera no próximo ferry.




Foi uma aventura de uma vida. 

Só que está só a começar ⭐️


Texto escrito por Inês Simões

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